quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Devoção

 

 



Amava os poetas

como quem agoniza,

drenando as vertentes 

do mistério

com suma sabedoria,

respirava sílabas sincopadas

quase a dizer que a vida

é espírito a se estreitar 

nas brumas da carne,

que a morte não repara

todos os crimes cometidos,

que as flores não esperam

o pólen para serem criadas.

Amava os poetas

com ardor de infâmia,

crucificando versos 

na via crucis do êxtase 

sempre a estreitar

nos braços o frio que fecunda

aquilo que um dia

será pleno antes mesmo de nascer .

Amava os poetas

como quem ama a audácia 

regenerando os vestígios

do que permanece inominável,

curvando-se diante

do ígneo das palavras 

a serem extintas

 e condenadas à salvação.  

Amava os poetas 

para condená-los a exumarem

o destino das coisas

dispostas a serem inventadas 

e a se fazerem novas

nos fósseis do tempo. 


Nenhum comentário: